Reflexões acerca do filme A Última Floresta e de como fugir da fórmula etnográfica.

Depois de Ex-Pajé, Luiz Bolognesi se aventura novamente em um filme com temática indígena. Em uma entrevista concedida ao canal 3 em Cena, Luiz conta uma história muito importante e que vale ser lembrada antes de entrar propriamente nos méritos de sua mais recente obra chamada A Última Floresta. Bolognesi conta que ao se encontrar com Davi Kopenawa para lhe apresentar seu projeto de filme e convidá-lo para ser co-roteirista, Davi fez questão de fazer uma crítica ao seu filme anterior Ex-Pajé, dizendo-lhe que não gostou do longa, pois o pajé retratado demonstrava uma fraqueza muito grande em relação ao pastor evangélico antagonista e que se, por acaso, um dia, Luiz e Davi viessem a trabalhar juntos, este filme teria que mostrar a beleza e a força de um xamã e seu povo e não suas fraquezas, não mostrá-los como “coitados”; em seguida Davi reitera dizendo: “O seu povo (os brancos) que está doente e não o nosso”.

Creio que este seja um bom ponto de partida para discutirmos um pouco do universo envolto neste grande filme chamado A Última Floresta e que vem tendo projeção internacional em festivais, inclusive conquistando prêmio em Berlim. Mas o que difere A Última Floresta dos demais filmes com esta temática ou filmes chamados etnográficos? Primeiro, sem dúvidas, a sua exímia escolha formal. Há tempos se discute os limites entre ficção e documentário, como se isto levasse a algum lugar além da mera discussão acadêmica. É de se elogiar que Luiz Bolognesi não reflexiona esta problemática ao realizar o filme, claro, muito por conta da influência que Davi exerceu no processo criativo. Desta maneira, se não há forma “pensada”, então a forma se ajusta ao filme e à essência captada através de uma imersão do realizador dentro do tempo daquela aldeia. E foi isto que Bolognesi buscou em sua realização. Contudo, não há como negar que existe sim a forma já pré-estabelecida através da linguagem cinematográfica etnográfica, assim como na escrita do livro que inspirou o diretor a realizar o filme, chamado A Queda Do Céu, também havia a forma pré-estabelecida pela literatura etnográfica. Mas como não fazer esta forma atrapalhar a mensagem? Como captar outro tempo, um tempo vivido por essa aldeia yanomami através do ponto de vista deles?

Luiz cita na entrevista que em um dado momento durante a filmagem sentiu que estava a perder o controle da obra, e isto é muito sintomático ao relacionar com as perguntas acima. Luiz Bolognesi confessa que neste momento pensou que talvez o filme não funcionasse para o público branco, mas apenas para o povo que estava retratando. Essa sensação de descontrole e confusão na mente do autor poderia gerar algum tipo de mudança abrupta na condução da direção da obra, se tratasse de um autor que ao se deparar com uma situação deste tipo trouxesse seu ego de volta para perto de si. Mas não foi o que Bolognesi fez, mesmo com esta sensação iminente, o diretor seguiu através de um processo criativo pautado pela convivência com os membros daquela aldeia, sem tentar impor ideais formais e narrativos para a construção do filme. Como ele mesmo fala, sua intenção era a de fazer um filme de conexão. Para entendermos melhor o que ele queria dizer com isto, é essencial acessarmos um pouco do livro A Queda do Céu, já mencionado acima.

A Queda do Céu é um livro de Bruce Albert e Davi Kopenawa Yanomami, que retrata o povo yanomami através de um longo relato de Davi Kopenawa. Em um dado momento da obra Davi diz que uma das intenções do livro é a de, através da palavra escrita transmitir a beleza de seu povo, para evitar futuros constrangimentos e pré-julgamentos por parte dos brancos. Ao decorrer da leitura nos deparamos com uma estrutura religiosa e mitológica tão complexa, que assim como Mircea Eliade diz em seu livro Tratado de História das Religiões, desmistifica o mito de que as religiões primitivas carecem de complexidade.

É evidente que o cinema também teria essa força e capacidade de, através da imagem, amplificar os dizeres de Davi. Não é à toa que Bolognesi decidiu realizar este filme após a leitura do livro e também convidar Davi para ser co-roteirista – um movimento essencial para o filme. Se as palavras já tinham feito este trabalho, o cinema entra como potencializador para perdurar sua mensagem, então não poderia ser realizado de outro jeito e Luiz Bolognesi tinha este conhecimento.

Durante a exibição confrontamos imagens emblemáticas por meio da encenação da mitologia deste povo através dos próprios yanomami. A contação de histórias faz uma passagem geral de suas crenças, que de forma resumida identifica alguns elementos fundamentais de sua cultura e do seu sagrado. Um destes elementos é o poder do sonho. Para se ter uma ideia, através dos sonhos, pode-se tornar um xamã, é o que acontece com o padrasto de Davi. Importante pontuar também que na entrevista de Luiz ao 3 em Cena, o mesmo diz que Davi, em seu primeiro encontro, expressou que pare ele o cinema era como um sonho. Então nada mais justo do que explorar este campo dentro do próprio filme, os sonhos de um povo retratado dentro de uma estrutura de sonho. Por fim, Bolognesi cita também a importância do sonho no próprio processo criativo do filme, onde ele e Davi conversavam sempre sobre os próprios sonhos enquanto o diretor estava a viver na aldeia, e a partir da discussão e interpretação destes sonhos, construíam o filme juntos.

Tudo isto, leva o filme, claro, para um campo do realismo mágico (para nós, brancos) através da encenação das histórias do povo yanomami, paralelamente aos momentos em que os mesmos tomam o pó de yãkoana. A confusão causada em nós é um grande mérito, pois nos tira de uma zona de conforto formal e narrativa. O filme não exige uma compreensão intelectual por parte do expectador, e aqui reside a tal conexão buscada. Aquele que souber afastar a sua experiência e adentrar-se ao filme de forma inocente, alcançará essa conexão. Ou seja, o mesmo movimento do autor da obra durante o seu processo criativo é exigido ao público, para que se construa essa tal conexão.

Há uma passagem do livro A Queda Do Céu em que Davi fala sobre o uso do papel e da escrita branca, em que ele diz:

“O pensamento dos brancos é outro. Sua memória é engenhosa, mas está enredada em palavras esfumaçadas e obscuras. O caminho de sua mente costuma ser tortuoso e espinhoso… Só contemplam sem descanso as peles de papel em que desenharam suas próprias palavras. Se não seguirem seu traçado, seu pensamento perde o rumo. Enche-se de esquecimento e eles ficam muito ignorantes.”

Ao rememorar esta passagem lembrei-me de um acontecimento recente e muito simbólico para esta ideia do branco acumulador de livros frente à uma leitura errada de uma obra de arte indígena. Em um dos episódios do programa televisivo Papo de Segunda, do canal GNT, o convidado foi o pensador indígena Ailton Krenak, que durante boa parte do programa não foi levado a sério, ou melhor, não foi compreendido, ou melhor ainda, por boa parte dos participantes, principalmente o filósofo Francisco Bosco, nem sequer tentou o compreender, uma vez que partia sempre do seu repertório fechado para dialogar sobre algo que estava fora do seu domínio. O tal acumulador de livros, de peles de papel, que Davi fala e que remete sempre a uma certa modernidade que carrega seu ego à frente. Por incrível que pareça, o massacre não é só físico, mas também intelectual e não só por parte da classe conservadora, mas também de uma parte da esquerda, que ainda não concedeu a credibilidade merecida aos pensadores e artistas indígenas.

Não podemos partir sempre de nossa experiência e isto o filme retrata muito bem. Não sabemos de nada, somos recém-nascidos naquele espaço-tempo, então assim como um recém-nascido, temos que escutar, ouvir e observar antes de mais nada. O conhecimento acumulado pelo homem branco, povo da mercadoria, povo da utilidade, da produtividade, tem duas faces, pois liberta-se através de uma percepção intelectual das coisas, mas prende-se e esvazia-se, distanciando da experiência do próprio corpo. À vista disso, que a arte branca tem que interferir o quanto menos nessas narrativas, Bruce faz isto e Luiz também na sua sábia escolha. Mas isso, logicamente não quer dizer que não podemos fazer um filme ou escrever seja do que for. Qualquer um pode falar do que quiser. Contudo, Bruce e Luiz não querem através dos yanomami trazer uma lição de moral para a modernidade perdida, mas sim potencializar o alcance desses povos, e nada feito através de denúncia, os garimpeiros entram na narrativa naturalmente, pois eles já estão ali inseridos de forma brutal no cotidiano daquela aldeia. É engraçado que nós enquanto sociedade não queremos fazer a autorreflexão de tentar entender o porquê estamos doentes, como Davi fala no início, e procuramos nos “coitados” alguma forma de justificar o nosso defeito enquanto sociedade.

A Febre, filme de Maya Werneck Da-Rin trouxe um pouco deste lado mítico, mas se manteve no campo da ficção. Para A Última Floresta não existe rótulo, assim como em A Queda do Céu também não existe. Não são objetos de um tempo outro, pois há o mínimo de interferência. Mas são quase isto. E no fim, a pergunta que fica não é o que podemos aprender com os povos originários. Como Krenak mesmo diz, nós, brancos, tivemos muito tempo para aprender e não nos interessamos. Hoje, precisamos acima de tudo, respeitar seu espaço, cultura, sagrado, e deixá-los viver do jeito que eles quiserem, sem imposições físicas e intelectuais. Tal fator é tão simbólico que em uma passagem do livro Davi afirma que os yanomami, desde muito cedo, não querem ser chamados pelo nome. O nome não importa. O corpo é muito mais presente do que a ideia de um nome. Os brancos gostam de nomear as coisas do jeito deles, contudo, precisamos respeitar e foi isto que Luiz Bolognesi fez, e acima de tudo o que Bruce Albert fez com seu livro. Não é à toa que a obra foi publicada após 30 anos de do seu convívio com os yanomami. É complicado afastar o ego o máximo possível. De certa forma, Luiz Bolognesi também conseguiu este feito e realizou de forma simples, na minha humilde opinião, o mais complexo e notável filme anti-etnográfico brasileiro dos últimos anos.

“O Cinema ao Vivo e as Suas Técnicas” ou o teatro digital e suas técnicas

Como utilizar o livro “Cinema ao Vivo e as Suas Técnicas”, de Francis Ford Coppola, para pensar a linguagem do teatro digital?

Faz algum tempo que tive a oportunidade de ler Cinema ao Vivo e as Suas Técnicas, de Francis Ford Coppola; e ao terminar o livro conclui que seria um tanto que absurdo pensar que aquele objeto que Coppola estava a tentar criar, teria algum espaço naquele momento – por volta de 2019. A ousadia de seu projeto parecia exagerada e ao mesmo tempo muito distante da tendência do mercado e para o que ele apontava. Tendo em vista algumas de suas excursões frustradas, bem como a inovação proposta com seu filme One From the Heart nos anos oitenta, não estava a colocar muita fé na sua ideia de cinema ao vivo. Do livro, de forma efetiva, busquei apenas tirar o máximo dos apontamentos paralelos que Coppola fez ao falar do processo criativo dos filmes que realizou ao longo da vida, principalmente em relação aos seus métodos de direção de atores, que realmente valem a pena serem lidos.

Contudo, recentemente deparei-me com este livro novamente e por incrível que pareça, percebi agora que o mesmo pode ser um bom marco para discutirmos como sofisticar a linguagem do teatro digital, que passa a se tornar uma realidade inevitável, mesmo em um cenário “pós-pandemia”.

No texto Os fantasmas e o espectador, questionei o comportamento das plataformas de streaming de cinema, mas é bom esclarecer que o mais problemático não é a exibição de um filme em uma plataforma digital, mas sim como a indústria cinematográfica está lidando com essa nova tendência. Talvez o teatro possa nos mostrar algo diferente dessa lógica, onde através do hibridismo entre o cinema e ele, nasça um objeto que possa ser criado a partir do autor, tendo em vista que dificilmente o teatro funciona ao ser transmitido como apenas uma extensão simplista do palco à tela. Desta maneira, pensar o teatro à partir de uma perspetiva cinematográfica torna-se necessário, quem sabe vindo a ser um espaço, inclusive, onde os autores de cinema possam exercitar sua linguagem autoral através do mesmo.

Em seu livro, Coppola sugere uma nova espécime que nem é teatro e nem cinema, mas sim:  cinema ao vivo. Um híbrido entre teatro, cinema e televisão, e que o diretor tentou experimentar em um workshop na UCLA com o auxílio de estudantes e professores. O livro traz todo seu relato experimental, traçando paralelos com sua carreira e sua experiência cinematográfica e acompanha também seu diário dos dias de produção na universidade. Para clarificar no que consiste o cinema ao vivo: basicamente encena-se um roteiro em direto – no caso desse workshop foi Distant Vision, uma história autobiográfica que retrata três gerações de uma família ítalo-americana cuja história perpassa o desenvolvimento da televisão –, que é transmitido de uma maneira mais sofisticada e com um olhar audiovisual muito mais apurado.

É fato que esse tipo de produção exige muitos recursos e bastante investimento. O conceito de cinema ao vivo de Coppola é baseado no uso de dezenas de câmeras, sistemas de replay instantâneo e outros equipamentos que permitem o realizador trabalhar o material em direto, para que as performances sejam representadas ao vivo e vistas em tempo real. Contudo, creio que podemos usar do livro de Coppola para assimilar a comunicação entre profissionais de teatro e cinema e o quanto uma área pode contribuir com a outra na busca de um objeto que sofistique o teatro digital, pois dificilmente o realizador da peça vai ser o mesmo da transmissão em vídeo. E assim sendo, o diálogo terá que existir e as escolhas perpassarão os dois autores também. No fundo, o teatro digital nada mais é do que uma tentativa de realizar uma versão minimalista do cinema ao vivo, de Coppola, porque apesar de levar o cinema em seu nome, a performance é teatral.

Inevitavelmente temos que pensar em algumas questões pertinentes quando se fala em teatro digital: o ritual de assistir a um espetáculo ao vivo é transferível para um computador ou uma pequena tela? Ou pode-se quebrar esta lógica do ao vivo para favorecer a qualidade audiovisual da peça? Algumas companhias e espetáculos já estão a fazer uso do conceito de pós-produção cinematográfica para trabalhar uma montagem pós filmagem da peça. Ação que inevitavelmente contribui para a qualidade audiovisual, mas quando retiramos o carácter real do teatro, do tempo, o que acontece? Continua a ser teatro? Coppola diria que não e que “o teatro é apenas relevante na medida da experiência que confere ao público.” Para ele, no fundo, se o material for para pós-produção, o distanciamento para com o público aumenta e a tendência é que o cinema talvez atropele o teatro nesse trajeto.

            Porém, ainda acho cedo para cravar algo, mas creio ser necessário tentar manter a experiência do momento – o teatro ganha vida no presente. Desta forma, o cinema ao vivo pode ser um excelente estudo para quem pensa no teatro digital por este viés. No cinema ao vivo, todos os profissionais trabalham em conjunto para um objeto artístico de momento único, onde a performance dá-se ao mesmo tempo que a equipe técnica trabalha para a transmissão audiovisual. Mas não podemos negar que, a partir do momento em que há muitos instrumentos sendo utilizados ao mesmo tempo, a produção está evidentemente mais suscetível aos erros, a questão é: esses eventuais erros justificam a experiência como um todo? No cinema ao vivo, sim.

 “o envolvimento está na mente de quem está a assistir, na consciência de que o desempenho, com todos os seus defeitos, é em direto.”

Francis Ford Coppola

Todo esse estudo em relação ao cinema ao vivo recairá sempre na questão financeira. É fato que esse modelo precisa de um investimento muito grande, como já dito anteriormente, mas talvez observando-o e extraindo-o o mais importante e necessário para concretizar esse hibridismo de artes performativas, possa sair algo tão rico quanto o objeto de Coppola.

Ao identificarmos o fundamental e perpassá-lo para uma lógica do teatro digital, deparamo-nos primordialmente com a necessidade de um diretor de cena (cinema) para a produção –  é indispensável trabalhar com os atores a questão da câmera. Segundo, temos de pensar a unidade. No teatro, a unidade básica é a cena, já no cinema é o plano. Encontrar o meio termo disso é o maior desafio. O cenário e o ator eventualmente serão manipulados para o enquadramento e não o contrário e, a montagem – mesmo não havendo pós-produção – existe ao alternar um plano pelo outro. É imprescindível transpor a linguagem cinematográfica para o teatro digital com o uso de montadores de cinema. Mas onde se insere a televisão nessa história? Quando Coppola refere-se à tevê, a mesma é pensada através de uma perspectiva de estrutura, de como trabalhar o esconder das câmeras e equipamentos, de como pensar a iluminação de uma forma prática, entre outros fatores característicos de uma produção ao vivo. Com o cenário da pandemia, muitos profissionais do audiovisual ficarão sem espaço, e seria bom recorrer ao teatro e vice e versa e tentar um maior cruzamento entre teatro, cinema e inclusive tevê.

Mas o público do teatro está preparado para isso? Provavelmente não. Mas talvez, se acaso nasça esse novo objeto, o mesmo possa vir a ser um meio de aproximar um público que está muito longe do teatro, e que não usará desse para substituí-lo, mas sim para descobri-lo. Não há o certo. É o momento de tentar tendo em vista a perspectiva futura. É muito simbólico que o trabalho e pesquisa de Coppola tenha sido feito em uma universidade – um espaço propício para se experimentar. Quem sabe no futuro nasçam realizadores do cinema ao vivo, ou teatro digital, onde os mesmos possam trabalhar juntos na construção da peça já pensando na linguagem cinematográfica da mesma. E sempre que pensarmos que Coppola está ultrapassado, talvez estejamos errados e ele esteja na vanguarda, assim como em One From the Heart, um filme que, apesar de mal-recebido, mostrou-se uma obra que estava à frente de sua época.

O livro de Coppola traduzido para o português não foi publicado no Brasil e sim em Portugal. Mas pode ser encontrado na sua versão original Live Cinema and Its Techniques.

E caso queiram ver um pouco do exercício realizado por ele na UCLA, está disponível aqui.

Quantas Madrugadas Tem a Noite: o desportuguês entre primos, um Brasil em Angola

Quantas Madrugadas Tem a Noite é uma obra que já data alguns anos, mas é um livro necessário de se resgatar agora para descobrir, inclusive, um pouco do Brasil em seu texto.

Uma vez impossibilitados de tomar uma cerveja com os amigos. Porque não uma cerveja em companhia de um bom livro?

“eu aqui me comprometo a te embalar na rede de palavras, nosso mar, nossa canoa, nós dois – nossa amizade nesta mesa de contar os misosos da vida, travessia nas lágrimas das nossas cervejas, aqui, nos olhos e na boca da noite.”

Esse é o compromisso selado entre o narrador de Quantas Madrugadas Tem a Noite e o leitor. Através da poesia mundana de Ondjaki, somos transportados para uma madrugada ao lado de um desconhecido e amigo da noite, em um bar situado em Luanda. Com o desafio de contar-nos a estória de um morto, ou melhor, a estória de um morto moldada por muitas outras estórias – uma árvore de vidas – o narrador de Quantas Madrugadas Tem a Noite leva-nos a uma viagem pelas palavras, pessoas e ruas de Angola. Caberá a ele o desafio de nos provar que uma noite é feita de muitas madrugadas e que até um romance cabe dentro dela.

Ondjaki não conta histórias, mas sim estórias. Assim como não escreve em português, mas sim em desportuguês. A liberdade estética unida às suas narrativas periféricas compõe uma obra singular que reflete o sujeito pós-colonial de origem portuguesa. O mesmo que usa da língua, da arte e da cultura para desconstruir e ressignificar um modelo, em prol da reflexão sobre o seu espaço inserido na modernidade – que vive assombrado pelo passado.

Ondjaki diz que não pensa que deve existir um dicionário de língua desportuguesa, mas essa á a língua que ele opera, que ele vive. É a oralidade transportada à literatura, sendo ela, uma das manifestações mais autênticas de um povo. Pensar como a arte pode transpassar essas manifestações é uma questão muito importante e urgente, não só na literatura, mas também no cinema.

Como exemplo recente de uma obra que retrata essa questão, podemos citar o livro brasileiro O Sol Na Cabeça, de Geovani Martins que, aqui em Portugal, vêm acompanhado de um pequeno glossário (assim como Quantas Madrugadas Tem a Noite). Contudo, diferente do livro de Ondjaki, o glossário de O Sol Na Cabeça é uma página solta do livro. À vista disso, quando emprestei o livro para amigos portugueses, fiz questão de retirar a página do glossário de propósito para sentir qual era o impacto das pessoas ao lê-lo sem perceber algumas expressões.

E talvez isso venha a ser uma tendência, uma vez que a mais recente obra de Ondjaki (O Livro do Deslembramento) não acompanha um glossário. A ideia é justamente experienciarmos diferentes manifestações linguísticas provindas do português e que, no fundo, traduzir-se-ão no desportuguês. Não podemos negar que esse movimento já foi realizado ao longo da história através de diferentes autores da língua portuguesa, mas a urgência dele manifesta-se cada vez mais forte, assim como a troca entre os países “desportugueses” também.

Quantas Madrugadas Tem a Noite é uma obra que já data alguns anos e que teve sua primeira publicação em 2004. Mas é um livro necessário de se resgatar agora para descobrir, inclusive, um pouco do Brasil em seu texto. Pode não parecer, mas as semelhanças são muitas. Ler Ondjaki é encontrar um Brasil do outro lado do mundo.

Não à toa, Ondjaki, em certos momentos, traça alguns paralelos com o Brasil e seu povo. Em uma passagem do livro, o narrador, ao contar sobre uma viagem que fez ao Brasil, relata seu encantamento por um poeta de rua que improvisa poesia a partir de uma breve impressão para com um recém-conhecido, como ele mesmo diz, aquele que pega as palavras do chão e cria. Assim como Ondjaki reconhece a beleza daquele poeta de rua brasileiro, não podemos deixar de reconhecer a sua também. Escrevo esse texto no dia mundial da poesia (apesar de ser publicado depois) sobre um romancista e prosador, mas também poeta, dos mais relevantes de nossa geração. Ondjaki é poesia encorajadora e não intelectual, é uma poesia real. Ondjaki é um ser poético.

nunca escrevi poesia: fui!

“a poesia não se faz, se vive; a poesia não se procura tipo diamante, se encontra tipo arco-íris: ou há ou não há – sorte e azar dos olhos no depois da chuva.”

Ao adentrarmos na narrativa de Quantas Madrugadas Tem a Noite, encontramos uma espécie de desventuras de um morto.  Primeiro nos deparamos com a morte como algo normalizado – fator comum entre países subdesenvolvidos. Entre “estorietas” e memórias, Ondjaki narra as aventuras entorno de um morto chamado AdolfoDido, que tem seu corpo sequestrado, e acaba por “viver” uma viagem pelas ruas de Luanda. Além do carácter kafkiano do ponto central da obra, surgem os personagens e situações absurdas que moldam um livro que, em muitos momentos, beira ao surrealismo. Situações nas quais encontramos certas semelhanças ao Brasil e que passa por nós, muitas vezes, desapercebidas.

“Eu acho isso mesmo, coisas que nós observamos aqui todos dias já nem falamos, mas nos olhos dos estrangeiros eu costumo encontrar espanto.”

Em Portugal, quando converso com alguém sobre aspectos sociais brasileiros, muitos se assustam e se surpreendem com a brutalidade enfrentada e a normalidade ao expressar tais fatos. E não que Portugal não tenha seus problemas, mas é muito diferente dos seus filhos colonizados que, aos poucos, estão tomando mais consciência da má influencia que o pai exerceu sobre eles e cada vez mais estão buscando uma reconexão com a mãe. Não podemos esquecer das nossas mães, considerando a África e o Brasil antes dos portugueses como tais. Temos o dever de estudar e de não cair em estereótipos (como o apontado por Ondjaki em um trecho do livro). O intercâmbio entre nós primos, como salienta o autor, é sempre necessário.

“Fomos no Brasil, afamada terra das miúdas; nossos primos, mas não querem dizer isso, porra, afinal a carapinha mete assim vergonha?

… mas lhe pergunta inda onde é Luanda, onde fica Angola? Vai pensar tás a falar de dança”

A pluralidade da arte de Ondjaki talvez seja reflexo justamente da sua condição artística em um país subdesenvolvido. Em seu conteúdo existe um hibridismo enorme e, na sua forma e estética, encontramos um cruzamento entre artes.

Existe em seu texto uma espécie de intersecção da linguagem do cinema proposta pelo narrador, que conduz em sua construção um relato quase imagético do texto. Em muitos momentos seus comentários que interrompem drasticamente o desenvolvimento narrativo (claramente vê-se que o eu-lírico é o próprio autor nesses momentos) lembram as notas que Werner Herzog constantemente faz em seus filmes, extraindo a profundidade e interioridade dos momentos mais potentes. É fato que em relação a Herzog normalmente estamos a nos referir a um documentário, mas o texto de Ondjaki traz também esse carácter documental.

E não só o cinema, mas a música também pontua sua escrita. Há alguns momentos do livro em que Ondjaki nos apresenta versos de estiga (ato de ridicularizar alguém de forma bem humorada) que, apesar de não ser musical, emana uma certa sonoridade em texto. Uma batalha de estiga se assimila um pouco às batalhas de rima que temos no Brasil, onde o vencedor é aquele que mais consegue estimular o público através da ridicularização do seu oponente. Fico a imaginar como seria um enxerto de uma batalha de rima em um romance. Ondjaki faz isso com a estiga e nos apresenta uma manifestação cultural pujante que interfere diretamente na linha narrativa de em um dos seus personagens (BurkinaFaçam).

Ao longo da obra são apresentados seus personagens e seus mundos, bem como Burkina e Jaí, que buscam lutar pela liberdade do corpo de AdolfoDido. Mas também os problemas característicos de uma Angola pós-colonial: toda a obra se passa em uma Luanda inundada pelas chuvas. São personagens que vivem sobre as inundações. Trazer essa imagem e seu simbolismo ao longo do texto reforça a tese da inundação como algo que transborda e, por mais que você tente esconder o que está embaixo dela, ela se revela de uma forma destrutiva. O Brasil também vive inundado há muito tempo, com muita sujeira e problemas que evitamos abordar, e a arte tem o papel de contribuir para acabar com essas inundações. No texto de Ondjaki ele não esconde os problemas, mas sim expõe e reflete de uma maneira engraçada, mas crítica. Com um viés absurdo – tragicómico. Através da língua – do desportuguês – alcança-se isso. “O barro que molda um povo”, como ele costuma dizer. E ao invés de uma unificação da língua e de auxílio de glossários, porque não experienciarmos o desportuguês de Ondjaki e de todos outros artistas que se propõe a isso. Por fim, de nada adianta lermos Ondjaki com a expectativa de ler em português. De nada adianta.

“ou como dizem os brasileiros: nadica.”