CACHÉ-INDICA: A Estrangeira (2019), de Claudia Durastanti

COMENTÁRIO:

A autobiografia já é uma realidade frequente na literatura contemporânea. Mas qual a fronteira entre ela e o romance? Em “A Estrangeira” não há fronteira: ambos entrelaçam-se através de um diário sentimental, um puzzle de memórias que pode começar a ser montado por qualquer canto. Para quem procura um romance linear clássico, não encontra aqui. O romance está presente, mas de uma maneira distinta – ele mora justamente dentro desse puzzle. Em “A Estrangeira”, a personagem principal vagueia pelo tempo – pelo seu próprio tempo. É uma espécie de autoficção movida pelo seu ressentimento, narrando assim, uma vida disfuncional romantizada. Mas há sim fronteiras no livro: obstáculos que fazem-na sentir-se estrangeira como extensão de quem ela é – filha de pais surdos que viveu sua infância entre o Brooklyn e uma pequena aldeia italiana e que nunca sentiu-se confortável em lado algum. Segundo a própria personagem, a autobiografia é a bastarda dos gêneros literários, é aquela que está à mão dos mais frágeis. Mas de frágil o livro não tem nada. É uma obra complexa, que apresenta personagens ambíguos em um mundo caótico, no qual uma mulher luta pelo seu lugar.

CACHÉ-INDICA: THE FATHER (2020), de Florian Zeller

COMENTÁRIO:

Dentro da temporada de premiações, chama atenção este pequeno filme sobre a relação de um homem com Alzheimer e sua filha. Se a premissa de The Father indica um filme comum ou melodramático, o interessante é como o diretor Florian Zeller utiliza de todas ferramentas audiovisuais para materializar o que é o dilema do Alzheimer e do esquecimento. É através das repentinas mudanças de cenário que ele desconstrói o espaço, através das quebras da montagem que desconstrói o tempo e através das diversas mudanças de foco narrativo que até mesmo o roteiro desconstrói a razão. O espectador é jogado dentro da mente deste homem e a grande questão do filme e daquele protagonista passa a ser a banal mas difícil missão de remontar o seu cotidiano. O mais interessante é que isso tudo não é só um artifício de cinema, mas entender a mente daquele homem e sua condição, potencializa cada encontro entre pai e filha e as incapacidades de reestruturar os laços afetivos numa mente sem memória. Além de tudo, The Father é a chance de ver Anthony Hopkins num papel que o desafia depois de tanto tempo. The Father é daqueles pequenos filmes, que de pequeno não tem nada.

CACHÉ-INDICA: Fireball: Visitors from Darker Worlds (2020), de Werner Herzog e Clive Oppenheimer

COMENTÁRIO:

Há um momento em Fireball, onde a dupla de diretores entrevistam uma cientista planetária que estuda meteoritos. Ela apresenta duas amostras aos dois. A primeira: uma amostra descrita como uma espécie de gotícula que se condensou nos arredores de uma nebulosa e que estava presente nos primórdios do sistema solar . A segunda: uma pequena fatia de uma pedra marciana que, apesar de provir de outro mundo, fascina pela sua familiaridade. Ambas amostras que, quando ampliadas, se assemelham à uma espécie de janela com vitral, onde dependendo da posição da luz, suas cores se manifestam ou se escondem. Deslumbrado, Oppenheimer pergunta se Carl Sagan estava certo e se somos feitos de poeira estelar. Ela responde que sim e que todos os elementos do nosso corpo foram sintetizados em outras estrelas antes de chegarem aqui. Instaura-se um silêncio no laboratório e a beleza do momento manifesta-se. Como uma janela com vitral, onde enxergamos suas cores dependendo da direção da luz, conseguimos ter acesso através da cientista, à algo que não estava presente antes. Em alguns filmes de Herzog ficamos à espera dessa luz: qualquer coisa que transcenda à própria entrevista. Fireball é um documentário que a um dado momento tende a fadigar por conta da pretenção de englobar muitos objetos em um só tema. Mas há instantes que, como esse, conseguem transmitir algo além do filme e que faz jus ao poder temático que a obra carrega.